COMO DIMINUIR SUA INFLUÊNCIA E SEU TEMPO NO PASTORADO DA IGREJA LOCAL?


COMO DIMINUIR SUA INFLUÊNCIA E SEU TEMPO NO PASTORADO DA IGREJA LOCAL?

Estudiosos apontam que o ideal no relacionamento pastor-igreja é que ministros permaneçam por longos períodos no mesmo campo e que igrejas valorizem o seu pastor.[1] Pastorados longos podem contribuir com a estabilidade da dinâmica eclesiástica, além de fortalecer os laços relacionais entre o líder e o rebanho, bem como permitir que o pastor participe ativamente da sociedade. Todavia, nem sempre isso acontece. Alguns pastores têm “vida curta” no pastorado das igrejas por onde passam. Alguns parecem ter “passagens meteóricas” e quando eles saem de suas igrejas, à semelhança do rei Jeorão, não deixam “de si saudades” (cf. 2Cr 21.20).

O término abrupto da relação ministerial nem sempre ocorre pelos maus tratos do conselho em relação ao pastor. Também, nem sempre é possível responsabilizar outros além do ministro pelo fracasso nesse relacionamento pastor-igreja. Em algumas ocasiões, o próprio pastor é o responsável por “encurtar” sua influência e o seu tempo no pastoreio da igreja local. Alguns erros cometidos pelo ministro são tão grosseiros que acabam colocando um “ponto final” no seu relacionamento com o rebanho, o que torna impossível a continuidade do seu ministério naquele campo.

Com o propósito de ajudá-lo a avaliar suas próprias atitudes e levá-lo a refletir sobre o progresso de sua relação com os membros de sua igreja local, menciono alguns fatores que podem atrapalhar o bom andamento do seu pastoreio. As recomendações aqui seguem os recursos da ironia e deveriam levar a correções o mais rápido possível, pois o ideal é que o pastor se arrependa e corrija suas falhas. Portanto, se você quiser diminuir sua influência e tempo no pastorado local, basta continuar cometendo esses sete erros.

 

  1. Fale com as pessoas como se elas fossem idiotas

Certos pastores parecem esquecer do princípio bíblico da cordialidade (Rm 12.10) e acabam ofendendo as pessoas em suas interações. Nem sempre é possível justificar essa atitude pela formação rudimentar desses obreiros, pois alguns até possuem vários diplomas e excelente treinamento acadêmico. Talvez por isso mesmo, eles se mostrem tão interessados em “provar” que possuem conhecimento e acabam desfazendo daqueles que não tiveram a mesma oportunidade de estudo. Com isso, ao invés de utilizarem o conhecimento como instrumento de edificação do próximo, usam-no dele para ofender e desmerecer as ovelhas do rebanho.

No geral, quando uma pessoa pensa que somente ela detém o conhecimento, acaba expressando seu orgulho e soberba e isso interrompe o que poderia ser uma interação edificante. Quando um pastor trata suas ovelhas como se elas fossem idiotas, se esquece de que, daquelas mesmas ovelhas, provém as orações a seu favor, o seu sustento e a oportunidade de desenvolver seu ministério. Talvez esse pastor, depois de ter estudado e lido tanto, precise se lembrar do verso bíblico que diz: “Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber” (1Co 8.2).

 

  1. Não visite os membros de sua igreja

Visitação doméstica é uma atividade básica no ministério pastoral. No entanto, isso tem se tornado uma raridade nessa época de domínio das mídias sociais. Alguns pastores parecem acreditar que conseguem pastorear por meio do Facebook e do WhatsApp. Ainda que esses veículos de comunicação sejam úteis em grandes contextos urbanos, onde o deslocamento é sempre desafiador, sua eficácia é superficial e relativa. Há situações que somente a visita pastoral atende aos anseios da ovelha aflita. Em casos onde o aconselhamento é necessário, o consolo ao enfermo é requisitado, a resolução ou mediação em algum conflito se fazem urgentes ou a instrução bíblica é exigida, a visita pastoral é sine qua non. Um antigo mentor me orientou que minha congregação poderia até me perdoar por alguns maus sermões, mas nunca por negligenciar a visitação pastoral.

Além de ser um dever, a visitação é uma excelente maneira de conhecer melhor as ovelhas e desenvolver relacionamentos duradouros com elas. Algumas necessidades do rebanho só são percebidas por meio dessa atividade. Portanto, não limite seu ministério à proclamação pública da palavra de Deus, mas procure ministrar essa mesma palavra no âmbito pessoal, por meio de visitações regulares. Se você não o fizer, seu ministério poderá ter curta duração em sua igreja local.

 

  1. Se recuse a ouvir ideias e sugestões de suas ovelhas

É fácil para o ministro cair no erro de pensar que a eficácia na liderança exige que as melhores ideias e projetos sejam de sua autoria. Com isso, esse mesmo obreiro pode se sentir ameaçado ou intimidado quando outras pessoas lhe apresentam boas ideias ou uma sugestão diferente de sua maneira de trabalhar. Nesse caso, uma das reações naturais desse mesmo líder é desencorajar, ainda que educadamente, ou desprezar completamente as sugestões dos seus liderados. Com o passar do tempo, essa atitude produzirá desânimo e afastamento daqueles que poderiam colaborar voluntariamente com os projetos da igreja. Se uma ovelha percebe que suas sugestões são desprezadas, ela também se sente desmotivada a colaborar com seu tempo e esforço.

O corpo de Cristo se desenvolve com a colaboração, os talentos e os dons de todos. Por isso, um pastor deveria ser grato a Deus por aqueles membros mais criativos e visionários que ele. As abençoadas sugestões dessas ovelhas acabam liberando o ministro para fazer aquilo para o que ele realmente foi chamado: se dedicar à oração e à Palavra. Além do mais, quando o membro da igreja percebe que suas ideias foram valorizadas, ele se compromete mais integralmente com a execução da mesma. O que muitos pastores se esquecem é que o trabalho cristão consiste de esforço voluntário e a melhor maneira de captar essa contribuição é respeitando suas ovelhas e apreciando suas ideias. É necessário que se lembre que até esse processo de aceitação, implementação e reorganização de novas ideias dos membros da congregação faz parte do discipulado pastoral com aqueles que desejam aprender a trabalhar no Reino. Portanto, o desprezo dessas ideias acaba afetando o relacionamento do pastor com suas ovelhas e afastando-o do seu rebanho.

 

  1. Nunca aceite perder um argumento nas reuniões do Conselho

Há pessoas que, por orgulho, não admitem perder; outras, pela imaturidade, não conseguem ceder. Quando essa pessoa é aquela que ocupa a liderança em uma igreja presbiteriana, as consequências são desastrosas. O presbiterianismo é caracterizado pela liderança compartilhada, onde mais de um presbítero governa sobre o rebanho. Além do mais, esse governo não pode seguir o modelo de “domínio”, mas precisa seguir o padrão “exemplar” (cf. 1Pe 5.3). No geral, o processo de tomada de decisões nesse sistema ocorre por meio de reuniões conciliares nas quais o alvo é o consenso do grupo. Porém, quando um pastor não consegue perder um argumento nessas reuniões, o que deveria ser edificante se torna um verdadeiro “campo de batalhas”. O pior é que nesses momentos o pastor revela toda a sua carnalidade e falta de humildade e domínio próprio. Sua influência sobre esse conselho não perdurará!

No processo de amadurecimento como líder, é importante ao pastor aprender a “escolher suas batalhas”. Há questões pelas quais não se pode ceder um milímetro sequer, especialmente quando se tratam de assuntos fundamentais à doutrina que pregamos e fomos vocacionados para defender. Nesses casos é necessário “batalhar diligentemente” pela nossa fé (cf. Jd 3). Todavia, há outros tópicos que são secundários, terciários ou até de natureza preferencial. Nesses casos, é preciso escolher pelo que lutar e brigar. Não se deve discutir por questões preferenciais, pois, se assim o fosse, toda interação na qual perdemos o argumento se tornaria uma contenda. E para os demais presbíteros de um conselho local, poucas coisas são mais desagradáveis do que participarem de reuniões com um pastor briguento e desequilibrado.

 

  1. Não aceite ser contrariado

Intimamente conectado ao tópico anterior, esse item diz respeito à atitude dominante do pastor em suas interações mais abrangentes do que meramente o círculo da liderança. Algumas pessoas não aprenderam a conviver com o contraditório e por isso, não aceitam ser contrariadas. Os adjetivos geralmente empregados para designar os que desejam liderar sem ser contrariados são “déspota” ou “tirano”, e o pastor não deveria ser conhecido por nenhum deles, pois seu estilo de liderança deve seguir àquele deixado por Jesus.

A intolerância de um pastor em relação ao contraditório revela o seu caráter contencioso. No entanto, Paulo escreveu ao jovem Timóteo que “é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente, disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez” (2Tm 2.24-26). Em outras palavras, mesmo diante da oposição, o pastor deve responder com brandura e mansidão. Além do mais, o contraditório pode ser edificante e benéfico, pois “o caminho do insensato aos seus próprios olhos parece reto, mas o sábio dá ouvidos aos conselhos” (Pv 12.15). Por isso, a recusa em ser contrariado e conviver com o contraditório acabará desgastando os relacionamentos e colocando um ponto final no seu pastorado local.

 

  1. Acredite que você é a pessoa mais importante da igreja

A atividade ministerial goza de grande importância na dinâmica da igreja local. Isso é notório pelo fato de que o pastor ocupa o centro dos ajuntamentos públicos na igreja. Ele geralmente dirige a liturgia, prega o sermão e anuncia as atividades semanais da igreja. Tudo isso contribui para que o restante do rebanho o tenha como uma pessoa importante na dinâmica da igreja local. Também, em algumas famílias, as tomadas de decisões frequentemente incluem uma consulta ou conselho com o pastor da igreja local. Outros certamente o procurarão para aconselhamentos em outras áreas da vida: relacionamento conjugal, criação de filhos, questões profissionais ou dilemas pessoais. Além do mais, as Escrituras ensinam que o ministério pastoral é uma bênção do Cristo ressurreto à igreja terrena (cf. Ef 4.11). Portanto, esse é realmente um serviço importante na vida da igreja.

Há, porém, uma diferença entre compreender a importância do ministério pastoral e o erro de pensar que o pastor é a pessoa mais importante da igreja. Quando o ministro cai nessa armadilha de imaginar que ele é indispensável à dinâmica eclesiástica ou que ele é o responsável pelo crescimento da igreja, seu coração se torna soberbo e ele passa a ter o próprio Deus por inimigo, pois “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tg 4.6). Nesse caso, o tempo e a influência do pastor na igreja local pode ser interrompido pelo próprio juízo divino. De fato, quanto mais nosso senso de importância cresce, mais carecemos meditar no verso bíblico que ensina: “não pense de si mesmo além do que convém” (Rm 12.3).

 

  1. Se for pastor auxiliar, desautorize ou envergonhe seu pastor titular publicamente

O relacionamento do pastor auxiliar com o seu titular pode ser altamente benéfico para ambos, mas não deixa de ter suas tensões. O auxiliar deve sempre lembrar que sua posição na igreja é de extrema confiança, pois se o titular não confiasse nele, provavelmente não o convidaria para trabalhar. Todavia, é verdade que nenhum pastor sonha em ser auxiliar durante toda sua vida ministerial.

Com o passar do tempo, o desejo de liderar uma igreja local, presidir o seu conselho, programar as atividades da igreja, enfim, atuar como um pastor titular, começam a crescer no seu coração. É natural que seja assim. Com o passar do tempo, o pastor auxiliar adquire mais experiência e segurança e começa a identificar alguns pontos fortes e fracos daquele que encabeça a liderança do rebanho. O que não é natural, porém, é que, antes de assumir sua própria igreja, o pastor auxiliar queira agir como se ele fosse o pastor titular da igreja, chegando ao ponto de contradizer, expor os erros ou desautorizar aquele que está na liderança. Quando isso ocorre, há uma quebra da confiança e uma falha ética. Certamente esses erros não deixarão de ser notados. Em casos assim, a dispensa não tarda!

            Certamente o ideal no relacionamento do pastor-igreja local é que o tempo e a influência do líder perdurem por anos. Todavia, devido a inúmeros fatores, esse ideal nem sempre se concretiza. Infelizmente um dos fatores que geralmente é ignorado pelo próprio pastor são suas falhas pessoais que deveriam ser corrigidas o mais rápido possível. As sugestões acima tocam em alguns desses erros, que, somente por meio de humilde reflexão diante de Deus e de outras pessoas, podem ser reparados. Minha oração, querido pastor, é que os tópicos apresentados sejam úteis para sua análise pessoal.

- Valdeci Santos

 

[1] MacArthur Jr., John. The legacy of long-term ministry. Disponível em: https://www.tms.edu/blog/legacy-long-term-ministry/. Acesso em: 06.04.2019; KNOWLES, Robert. Reaching the fruitful years: Long term ministry relationship in the convention of Atlantic Baptist Churches. A thesis submitted to the faculty of Gordon Cromwell Seminary in partial fulfilment of requirements for the degree of Doctor in Ministry. April 2005.