O PASTOR E SUAS FINAÇAS


O Pastor e suas Finanças 

Grande parte da vida gira em torno do dinheiro. Ele é o instrumento pelo qual nossas necessidades diárias são comumente supridas. Por isso, algumas das nossas principais angústias e ansiedades nessa vida acabam relacionadas a ele. Como, pois, tratar corretamente a questão financeira, especialmente em sua conexão com o ministério pastoral?

Antes de tudo, é necessário observar que Jesus abordou finanças como um assunto espiritual e nós devemos fazer o mesmo. Por exemplo, na parábola do administrador infiel, o Senhor ensina, no mínimo, três lições relacionadas à dimensão espiritual das riquezas. Em primeiro lugar, ele indica que nossa vida espiritual é afetada pela maneira como lidamos com o dinheiro, pois, se não administramos corretamente as riquezas aqui na terra, “quem nos confiará a verdadeira riqueza?” (Lc 16.10-11). Ademais, ele deixa claro que nossas posses, muitas vezes, competem com nossa devoção a Deus e, por isso, ele exortou: “Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Lc 16.13). Por último, ele ensina que o uso apropriado das riquezas terrenas pode contribuir com o avanço do Reino e a salvação de algumas pessoas (Lc 16.9). Essa mesma abordagem é posteriormente ilustrada em outras passagens do Novo Testamento, especialmente no episódio de Simão, o mago, e nos escritos de Paulo (cf. At 8.18-20 e 1Tm 6.10).

Também é mister compreender que grande parte do sucesso ministerial está intimamente conectado à maneira como o pastor lida com suas finanças. Nesse sentido, é importante lembrar o princípio bíblico de que, se o líder não governa bem a sua casa, não está apto para cuidar da igreja de Deus (1Tm 3.5). Esse governo não diz respeito apenas à questão relacional, mas inclui o controle adequado de suas finanças. De fato, problemas financeiros afetam a vida emocional e relacional das pessoas e a família do pastor não está isenta dessas tensões. Dificuldades financeiras podem gerar atritos entre casais, bem como pais e filhos, o que resulta em enormes desgastes. No caso do pastor, é muito fácil que ele se envolva tanto nos trabalhos da igreja local que acabe negligenciando o esforço para cuidar de sua vida financeira e, quando percebe, os problemas nessa área já estão afetando a credibilidade do seu ministério. De fato, parte do sucesso ou fracasso na vida ministerial acaba conectada à maneira como o pastor lida com suas finanças.

Com relação ao sustento do pastor, a Bíblia ensina que a igreja deve cuidar dos seus obreiros, especialmente aqueles que se afadigam na Palavra devem ser considerados merecedores de dobrados honorários (cf. 1Tm 5.17). No entanto, nem sempre a liderança da igreja atenta para o fato de que o pastor possui alguns gastos diferenciados e, muitos deles, relacionados ao exercício do ministério pastoral. Os livros que ele adquire, as vestimentas para as ocasiões festivas na igreja, os gastos com a hospedagem de pregadores convidados, para citar apenas alguns exemplos, nem sempre são considerados. Além do mais, alguns líderes locais agem como se tivessem recebido a “comissão divina” de manter seus pastores humildes e a estratégia que usam para isso é pagando um salário miserável, indigno da função que esses obreiros exercem. Todavia, o erro de algumas igrejas em relação aos seus ministros, não justifica que esses mesmos obreiros deixem de zelar pelas finanças pessoais e acabem endividados.

Há, de fato, muitos erros cometidos pelos pastores em relação a saúde financeira e isso acaba gerando enormes dificuldades para o ministro, sua família e a igreja onde ele trabalha. É possível listar alguns dos principais descuidos cometidos por pastores nessa área. Todavia, é importante lembrar que a relação apresentada abaixo consiste apenas de itens gerais, portanto, é essencial que cada caso seja examinado individualmente.

1.      Falta de planejamento

Considerado um dos principais problemas do empreendedor brasileiro, a falta de planejamento também aflige a gestão pessoal e familiar. Nesse sentido, muitos gastos são realizados sem a devida certeza de sua necessidade ou relevância. Convenhamos: dedicar tempo analisando os próprios gastos e estabelecer um controle do orçamento mensal não é a coisa mais agradável a fazer, mas é um passo básico para se obter saúde financeira. A complicação é que, quando o básico é ignorado, toda a vida financeira é colocada em risco.

2.      A compra por impulsos

Quem não se programa, acaba gastando por impulso. Sempre haverá aquela “promoção que não se pode perder”, um “item que atraiu demasiadamente a atenção”, aquele objeto que “há tempos você queria” ou aquele “programa dos sonhos”. Todavia, todas essas coisas geram gastos, e esses, acabam pesando no final do mês e geram desequilíbrio financeiro.

3.      O mau hábito de gastar acima dos limites

O princípio do orçamento é simples: a despesa nunca deve ser maior do que a receita! No entanto, essa norma nem sempre é obedecida pela média dos brasileiros. Por essa razão, o endividamento é um sério problema em nossa cultura. Pior ainda, essa prática horrível também atinge a cultura pastoral.  O preço que se paga por esse erro não é apenas o monetário, mas o moral, pois o pastor endividado acaba caindo em descrédito diante de sua igreja.

4.      O descuido com o cartão de crédito e o cheque especial

O cartão de crédito e o cheque especial costumam ser aliados nas compras emergenciais ou com valores altos. Porém, se o usuário não tem cuidado, acaba usando além do limite e, nesses casos, além de não poder mais usar o crédito, os juros a serem pagos se tornam muito acentuados e difíceis de serem pagos. Tudo isso acarreta em mais sobrecarga financeira sobre um orçamento que, no geral, já é apertado.

5.      A falta de reserva para o imprevisto

O bom senso recomenda que cada pessoa procure manter uma reserva, ainda que pequena, para as emergências (enfermidades, viagens, negócios de oportunidade, etc.). Embora não seja fácil, esse hábito acaba tornando a vida bem menos estressante em momentos críticos. O ideal é que essa reserva seja construída aos poucos, com depósitos de uma pequena porcentagem do salário mensal, mas que somente será acionada em caso de extrema urgência. Especialistas geralmente sugerem que 10% do salário seja depositado com esse fim. Quando a pessoa não possui reserva alguma, além de estressante, algumas circunstâncias chegam a ser desesperadoras.

6.      A negligência em relação aos tributos previdenciários

No Brasil, a partir do momento que uma pessoa inicia uma atividade remunerada, ela deve contribuir para o INSS. Isso não é opcional, mas uma obrigação. Aliás, exercer uma atividade remunerada e não contribuir com o INSS é considerado crime de sonegação fiscal. Essa contribuição possui vários benefícios, tais como: a aposentadoria por tempo de contribuição, o auxílio-acidente, auxílio-doença, aposentadoria por invalidez e outros. Embora no momento da contribuição o fardo pareça pesado, nas ocasiões de se colher os benefícios, o contribuinte verá que valeu a pena. Há muitos pastores que negligenciam essa contribuição e, após a jubilação ministerial, acabam não tendo como providenciar valores até os medicamentos necessários em sua velhice.

7.      A falta de contentamento em relação ao todo recebido

Contentamento é uma disciplina espiritual. Isso também se estende ao aspecto financeiro. João Batista exortava alguns que vinham para o seu batismo a se contentarem com o “soldo” (cf. Lc 3.14). A admoestação de João pode ser muito bem aplicada aos pastores da atualidade. Há muitos insatisfeitos com o valor que recebem como côngruas, mas se esquecem dos benefícios da residência, auxílio a combustível, abono do dia do pastor e alguns outros presentes que recebem da membresia da igreja ao longo do ano. Essa falta de considerar o todo que recebem os torna descontentes e isso pode alimentar neles a inveja de quem tem mais. Para piorar, a inveja acaba alimentando o desejo de ter e adquirir mais do que precisam, pois nem sempre o que queremos é o que precisamos. Isso reflete no orçamento financeiro e resulta em descontrole e dívidas.

Valdeci Santos