162 ANOS DE GENTE SIMPLES PREGANDO O EVANGELHO


     Dia 12 de agosto desse ano do Senhor de 2021, comemoramos 162 anos da chegada de Ashbel Green Simonton ao Brasil. Essa data entrou para o calendário da IPB como dia de aniversário de nossa amada igreja. É um marco simbólico, sem dúvida alguma. Não resta dúvida de que é um período de festa, memória e ação de graças.

           

            Longe de mim desmerecer essa data que celebro há tantos anos, mas quero convidar você, leitor presbiteriano ou não presbiteriano, a tomar um cuidado: nunca se esqueça do fato de que a Igreja – inclusive a parte dessa família chamada IPB – é feita de gente famosa e de gente não famosa. Muito da História da Igreja ainda é escrita como uma coletânea de heróis, mas esses formam apenas uma pequena parte do Corpo de Cristo.

 

A maior parte do dia a dia dos ajuntamentos presbiterianos espalhados pelo Brasil viveu, vive e seguirá vivendo o discipulado, o seguir a Cristo, pela ação do Espírito Santo aplicando a Palavra de Deus, o Evangelho de Jesus Cristo, ao coração de gente de várias classes sociais, cores, formações, idades, origens étnicas etc., mesmo sem grandes teólogos envolvidos diretamente nesse processo de leitura e/ou pregação das Escrituras.

 

Já que hoje é dia de o presente olhar para o passado com gratidão e orar pelo futuro com esperança, deixe-me discorrer um pouco sobre o início do trabalho presbiteriano no Brasil. Não quero me deter nos grandes vultos, nos célebres nomes já relatos com muita qualidade em obras da História da IPB. Devemos ser gratos a Deus por essas pessoas de grande importância na trajetória da nossa igreja, bem como devemos ser gratos pelos irmãos que se dedicam a escrever sobre eles. Mas quero tratar nesse texto dos leigos presbiterianos, que foram, são e continuarão sendo fundamentais para o presbiterianismo em nossa terra.

 

Embora não goste muito do termo leigo, aqui ele significa apenas irmãos e irmãs não ordenados (presbíteros docentes, presbíteros regentes e diáconos) ou não formados e enviados diretamente para a evangelização (missionários e evangelistas).

 

Uma das características mais interessantes de nossa história é que, quando pastores chegaram em algumas comunidade onde só havia oficialmente igrejas romanas, muitas vezes já encontraram algumas pessoas lendo as Escrituras por conta própria. Isso se deu principalmente devido a uma figura muito importante na distribuição da Palavra de Deus no Brasil do século XIX e início do XX, a saber, os colportores, que eram vendedores que viajam pelo nosso país vendendo várias coisas, inclusive Bíblias em português e literatura evangélica traduzida para leitores da nossa língua (“a última flor do Lácio”!). Algumas vezes, nos lares, os colportores podiam falar do Evangelho, mas sua principal contribuição para a propagação da fé evangélica no Brasil foi ajudar a colocar a Palavra de Deus nas mãos do povo.

 

Por causa dessa leitura e da ação do Espírito Santo, muitos pararam de adorar santos, pois entenderam que só Deus deve receber toda a glória. Também começaram a compreender melhor a questão da salvação pela graça mediante a fé em Jesus Cristo, único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5).  Não foram poucos os casos de conflitos com padres por causa de ensinos da igreja romana que não encontravam respaldo bíblico, isso devido ao fato da crença de muitos deles sobre a Bíblia como a única fonte de fé e prática do cristão.

 

Você já deve ter percebido, leitor, que as principais doutrinas da Reforma Protestante (Solus Christus, Sola gratia, Sola fide, Sola Scriptura e Soli Deo gloria) muitas vezes chegaram ao coração dos crentes em alguns lugares de nosso Brasil antes da pregação formal de gente com educação teológica. Isso aconteceu de norte a sul, de leste a oeste. Alguns pastores chegaram a localidades nas quais crentes já se reuniam em casas para ler a Bíblia e orar.

 

Evidentemente o ensino formal da Teologia Bíblico-Reformada por parte dos pastores/missionários estrangeiros e brasileiros ajudou muito a corrigir desvios doutrinários, a consolidar a fé conforme as Escrituras e a instituir uma igreja ortodoxa. Mas esses obreiros treinados eram gratos a Deus por ver a Bíblia na mão do povo e a ação do Santo Espírito aplicando as verdades das Escrituras aos corações dos crentes.

 

Mesmo depois de organizar igrejas presbiterianas nas cidades e povoados Brasil afora, os pastores passavam meses sem ir a essas localidades, tendo em vista que eram poucos trabalhadores ordenados para seara tão grande, obrigando os presbíteros docentes a cuidarem de comunidades separadas por quilômetros de distância. Então, com as igrejas organizadas, irmãos ordenados e treinados, mesmo que de forma simples, nas principais doutrinas presbiterianas eram ordenados oficiais presbiterianos e tinham como responsabilidade pregar nos cultos e instruir o povo do Senhor. Muitos desses irmãos têm seus nomes esquecidos, mas foram instrumentos valiosos nas mãos de Deus, mesmo com a educação teológica e geral limitadas.

 

Portanto, sejamos gratos a Deus pelos 162 anos de nossa amada IPB. Nesse período de gente querendo pastorear ou ser pastoreada por redes sociais, que nosso coração seja grato ao Nosso Cabeça, Cristo, pelos nomes famosos que constam nos livros de História da Igreja, contudo, não nos esqueçamos de agradecer ao Mestre por aqueles de quem nem sabemos o nome, mas que ouviram da boca do Mestre deles e nosso: “Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor’” (Mt 25.21 e 23). Oremos para que o Espírito Santo levante e capacite mais trabalhadores – ordenados ou não – para a seara, pois ela continua grande. Que você possa dizer hoje ao Deus Triúno, presbiteriano e presbiteriana brasileiros: “Eis-me aqui. Envia-me" (Isaías 6.8).