O PASTOR E A MUDANÇA DE CAMPO


“Querida, precisamos mudar de novo!”

Valdeci Santos

 

A família do pastor, no geral, se muda muito de residência, e de campo. Mudanças podem ser benéficas, pois nos obrigam a “limpar a casa” dos bagulhos e cacarecos acumulados ao longo dos anos. Mas, de fato, mudanças não são fáceis. Se os filhos do pastor ainda são crianças, poderão se entristecer por serem transferidos de escola e afastados de coleguinhas ou familiares. Se eles já são adolescentes ou jovens, além de se entristecerem, poderão esbravejar por causa desses afastamentos. Por outro lado, a igreja também é afetada e pode ficar com o sentimento de vazio ou frustração por mais um obreiro que não permaneceu. Ademais, mudanças contínuas podem gerar tensões e angústias no relacionamento entre o pastor e sua esposa e, ainda que temporariamente, roubar a harmonia do casal. De fato, mudanças de campo não são fáceis para o pastor e sua família!

Há um consenso no meio evangélico de que os pastorados longos são mais benéficos para a igreja local do que os ministérios de curta duração. Charles Arn, pesquisador americano sobre crescimento e saúde da igreja cristã, menciona um estudo realizado por uma grande denominação americana acerca da influência do tempo de ministério do pastor no desenvolvimento da congregação local. Os dados coletados mostraram que três quartos das igrejas em ritmo de crescimento significativo eram conduzidas por ministros que estavam nelas por mais de quatro anos. Por outro lado, dois terços das igrejas em declínio haviam experimentado múltiplos pastorados de curta duração. A conclusão lógica foi que pastorados longos podem não garantir o crescimento da igreja local, mas pastorados breves certamente contribuem para a falta de crescimento de algumas igrejas.[1] A verdade é que quase não se ouve sobre igrejas caracterizadas por pastorados curtos que estejam crescendo.

No Brasil, pastorados de curta duração parecem ser a norma e isso é especialmente notório nas denominações históricas. Estatisticamente, pastorados longos são raros e o fenômeno da transição pastoral nas igrejas brasileiras é frequente. Essa “dança das cadeiras” é comumente mencionada nas interações sobre o “pastor à procura de campo”, o “pastor sem campo”, a “igreja sem pastor” ou o “pastor em transição”. A despeito do vocabulário empregado, a realidade é que as mudanças de pastores são tão comuns que muitos já nem consideram os efeitos que esse fenômeno pode trazer sobre a família do pastor.

É verdade que em algumas situações, ainda que dolorosa, a mudança realmente precisa acontecer. Essa necessidade pode ser analisada tanto sob a perspectiva do pastor quanto do conselho da igreja. Com relação ao primeiro caso, já publicamos aqui uma excelente reflexão do Dr. Augustus N. Lopes.[2] Quanto à perspectiva do conselho, é compreensível que a ineficácia quanto ao desempenho do ministro em suas atividades básicas, o estilo centralizador e autoritário de liderança, uma personalidade belicosa e geradora de conflitos ou algum outro aspecto negativo na conduta do obreiro justifique a decisão quanto à dispensa do ministro. A despeito da explicação apresentada, porém, o fato é que toda transição pastoral possui consequências.

O objetivo dessa reflexão é considerar os efeitos comuns que uma mudança de campo pastoral pode ter sobre o pastor e sua esposa. Conforme indica o título acima, a comunicação da necessidade de uma nova mudança sempre carrega um tom de frustração por parte do que fala e, geralmente, é recebida com desalento pela pessoa que ouve! Nessa dinâmica, é importante que tanto o marido quanto a esposa considerem cuidadosamente suas próximas atitudes a fim de minimizarem possíveis tensões e, a despeito dos desapontamentos, continuem crescendo espiritualmente.

 

  • Os cuidados do marido

Em meio à decepção de ter acrescentado mais uma mudança de campo ao seu currículo, é normal que o pastor se sinta fracassado e confuso. Uma das grandes tentações nesses momentos é cair em uma introspecção sem fim ou num isolamento que não colaboram com o relacionamento familiar nem com o desenvolvimento espiritual dos envolvidos no processo. Portanto, é imprescindível que o ministro se lembre de três verdades básicas.

 

  1. Sua dependência e confiança no Senhor é uma poderosa pregação aos que estão ao seu redor. É sempre bom lembrar que sua vida está no palco e outras pessoas observam suas reações. O Deus soberano e gracioso vocacionou você para ser ministro sobre o rebanho dEle e estabelecer exemplo de boas obras não apenas nos momentos alegres, mas também nas ocasiões tristes. Por essa razão, use essa oportunidade para praticar o que pregou ao rebanho durante o tempo que esteve como pastor dessas ovelhas.

É necessário que o ministro saiba que não importa quantas vezes ele pregou sobre o Deus bondoso e misericordioso, pois nos momentos de aflição ele mesmo pode descrer dessas verdades se não as pregar a si mesmo o tempo todo. Assim, é necessário orar e suplicar que Deus nos conceda a graça de continuar confiando “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado” (Hc 3.17). Essa confiança talvez seja o mais eloquente sermão que você poderá pregar aos que se encontram ao seu redor, especialmente à sua família. 

 

  1. Sua esposa é (ao menos deveria ser) sua maior aliada nesse processo. Muitas vezes, o desapontamento tem o efeito de turvar nossa visão quanto às bênçãos concedidas pelo Senhor sobre nós. A esposa prudente se encontra entre as maiores bênçãos do Altíssimo para nos ajudar nesses instantes. De fato, a esposa do pastor é (ao menos deveria ser) sua maior aliada. Ela o conhece e o ama mais do que qualquer outra pessoa! Ela o auxilia a levar seus fardos e tristezas, ora diariamente por sua vida e ministério, observa aspectos do seu caráter e coração como ninguém mais pode fazer. Verdadeiramente ela é uma grande aliada!

Lembrar disso nos momentos de transição pastoral é importante para lutar contra o sentimento de solidão e abandono após uma experiência fracassada. Recorrer à esposa como companheira de lutas e orações pode fortalecer o relacionamento do casal mesmo quando esse enfrenta crises ministeriais.

 

  1. Sua esposa e filhos também estão sofrendo nesses momentos. Portanto, não os negligencie! A dinâmica de processar internamente uma experiência negativa e a preocupação em encontrar um novo campo podem consumir horas e energia do pastor. Um dos riscos nessa situação é negligenciar os que estão mais próximos de nós. Todavia, em se tratando da esposa e filhos do pastor em mudança de campo, é necessário lembrar de que eles também sofrem com a transição. Além do mais, quando se muda para um novo campo, é sempre tentador para o pastor trabalhar intensamente a fim de demonstrar suas qualidades a ponto de se esquecer das dores e dificuldades enfrentadas pelos membros de sua casa.

Nesse sentido, é necessário que o pastor se conscientize de que a obra do Reino de Deus também inclui cuidar dos seus próprios familiares. Afinal, “se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente” (1Tm 5.8). Logo, não negligencie sua esposa nem seus filhos!

 

  • Os cuidados da esposa

A primeira pessoa a receber a notícia da mudança de campo pastoral é, no geral, a esposa do ministro. Diante do comunicado do esposo, a reação de surpresa, desapontamento, alívio ou alegria da família pastoral passará, primeiramente, por ela. Por isso, é importante que saiba responder à situação da melhor maneira possível. Assim como acontece com o marido, há algumas atitudes básicas a serem tomadas.

 

  1. Evite exigir do seu marido o que somente Deus pode conceder a você. Sempre será uma tentação para a esposa exigir muito do marido, especialmente quando as coisas se tornam mais difíceis. A esposa do pastor pode ser tentada a colocar um peso maior sobre os ombros do marido, pois, afinal, ele é pastor! Nos momentos de transição pastoral é possível que a esposa deseje que o marido cuide de todas suas necessidades e alivie os sentimentos de insegurança, solidão ou alguma amargura que surgir. Porém, somente Deus pode fazer isso!

Talvez a esposa se lembre-se de que ela não queria seguir o marido para esse campo onde as coisas não funcionaram como era esperado ou talvez ela tenha receio em segui-lo para o novo desafio que vislumbram, mas o que ela necessita saber é que nada ocorre contrário à vontade de Deus e Ele é poderoso para redimir até as experiências frustrantes. Logo, a prudência nesses momentos convida a esposa do pastor a orar para que o Senhor conceda a ela expectativas realistas acerca do seu marido, bem como graça para orar por ele e auxiliá-lo em suas horas de indecisões e receios pessoais. Esses momentos se apresentam como oportunidades para a esposa interceder com e pelo seu marido que geralmente ora por outras pessoas em suas angústias.

 

  1. Lembre-se da fidelidade de Deus. É verdade que a esposa do pastor parece ter sido vocacionada para uma vida de sacrifícios, mas também é certo que Aquele que a vocacionou tem revelado sua fidelidade ao longo da jornada como auxiliadora idônea dela. Portanto, nos momentos de dificuldades, é importante se lembrar de como o Deus fiel tem respondido às orações e revelado o seu cuidado singular. A fidelidade de Deus indica que ele não se esquecerá dos pequenos esforços que fazemos em prol do avanço de sua obra, pois, no Senhor, o trabalho do crente “não é vão” (1Co 15.58).

Quando nos lembramos da fidelidade do Senhor em meio às nossas aflições, nosso coração é consolado pela verdade de que a última palavra pertence a Ele e nunca às circunstâncias. Dessa maneira, uma das verdades a serem trazidas à memória e que geram esperança é que no ministério, assim como em cada outro aspecto da vida, servimos o Deus fiel.

 

  1. Use a solidão como razão para mais intensamente derramar seu coração diante de Cristo. Transição normalmente é um período acompanhado de adaptação, saudades, temores e solidão. Esse sentimento de vazio que é a expressão da solidão pode ser combustível para a murmuração, lamento ou depressão. Todavia, não precisa ser assim. É possível usar a solidão como um impulso para o derramar da alma perante Cristo em oração e súplica por sua graça e intervenção. Afinal, essa parece ter sido a atitude de Ana, mãe do profeta Samuel (1Sm 1.9-18).

É possível que até o tempo de dor da solidão seja usado como meio de nos aproximar mais de Cristo e revelar nossa dependência maior dEle. A melhor maneira de realizar isso é lembrar sempre de que o Emanuel sempre permanece ao nosso lado e nunca muda, ainda que as circunstâncias ao nosso redor oscilem continuamente.

 

Realmente pastores e suas famílias mudam muito no Brasil. Esse fenômeno nem sempre é benéfico para as igrejas e, principalmente, para os pastores e seus familiares. Todavia, essa situação parece que não irá mudar tão rapidamente nos próximos anos. O melhor é que o pastor e sua esposa aprendam a reagir melhor a essa realidade a fim de continuarem crescendo em Cristo e em intimidade um com o outro, a despeito das consequências desconfortáveis das contínuas mudanças de campo.