O QUE AS MENSAGENS SOBRE SUICÍDIO DE PASTORES COMUNICAM


O que as mensagens sobre suicídio de pastores comunicam?

Valdeci Santos

 

            Geralmente não esperamos que pastores atentem contra a própria vida. Afinal, o ministério desses obreiros envolve ajudar outras pessoas com os problemas que enfrentam na vida, bem como a encontrarem sentido para a existência nesse universo. Pastores são pessoas que pregam sobre a vida eterna e anunciam Jesus como a fonte da vida em abundância. Sendo assim, o que dizer sobre as notícias de tantos pastores que colocaram um ponto final em suas vidas por meio do suicídio?

Notícias sobre suicídio de pastores têm aparecido com frequência alarmante nas mídias sociais nos últimos dias. Há muita dor e pesar resultantes desses anúncios e compartilhamentos. Familiares e amigos mais próximos, no geral, acabam estigmatizados, involuntariamente, pela associação a um evento sobre o qual não tiveram o controle e nem sempre possuirão explicações adequadas. Também, o impacto dessas notícias geralmente é acompanhado não apenas por tristezas, mas também por confusões entre os crentes. É verdade que ninguém deveria analisar esses acontecimentos de maneira simplista, como bem escreveu Filipe Fontes (https://ipb.org.br/informativo/sobre-o-suicidio-de-pastores-4352). Esses episódios nos convidam a uma reflexão muito mais abrangente do que se costuma fazer, tanto no aspecto coletivo quanto individual (https://ipb.org.br/informativo/quando-um-pastor-comete-suicidio-4245). Infelizmente, porém, nem sempre é possível contar com a prudência cristã nesses assuntos, pois há aqueles que comentam cada novo episódio de maneira sensacionalista e insensível.

Suicídio é um assunto complexo, cuja análise sempre será deficiente. Antes, porém, de se considerar o ato suicida, é necessário que se identifique pessoas com pensamentos suicidas, pois o ato começa na mente, muito antes de sua execução. Em se tratando dos casos de pessoas com históricos de insanidade mental, profissionais da área geralmente defendem que pensamentos suicidas resultam do sentimento de impotência em relação a alguma situação esmagadora enfrentada pelo executor, bem como à falta de esperança sobre alguma solução futura. Nesses casos, a pessoa pode pensar, erroneamente, que o suicídio será a solução. Outro detalhe a considerar é o chamado “efeito copycat”, ou seja, a decorrência social de alguém se sentir inspirado por algum ato violento cometido por outra pessoa a ponto de copiá-lo. Por exemplo, estudos nos Estados Unidos apontam que casos de suicídio entre adolescentes aumentaram após a popularidade do seriado 13 Reasons Why (https://www.npr.org/2019/04/30/718529255/teen-suicide-spiked-after-debut-of-netflixs-13-reasons-why-report-says). Nesse sentido, a influência social das divulgações dos tristes eventos de suicídios de pastores pode contribuir para a aceitação como normal daquilo que anteriormente era considerado inconcebível. Ainda que plausíveis, essas teorias não respondem satisfatoriamente aos corações angustiados e confusos pelos casos de suicídio entre pastores.

Realmente é difícil de compreender a razão pela qual aqueles cuja vocação é anunciar a vida, acabaram abraçando a morte e colocando um ponto final em sua existência. Todavia, o objetivo desse artigo não é ponderar sobre as possíveis explicações desses eventos, mas refletir sobre alguns efeitos que as últimas notícias sobre suicídio de pastores comunicam àqueles que as recebem. Em outras palavras, o que o compartilhamento desses tristes episódios apregoa especialmente ao universo evangélico? Após acompanhar alguns familiares de ministros que cometeram suicídio, ouvir alguns sobreviventes de tentativas em cometê-los, mas que pela graça de Deus não foram bem-sucedidos, depois de visitar e conversar com vários membros de igrejas cujos pastores atentaram contra a própria vida achei por bem compartilhar alguns destaques dessas entrevistas que revelam a mensagem comunicada pelos diferentes casos de suicídio de pastores. Por uma questão de objetividade, procurarei manter as observações desse artigo a apenas cinco tópicos que, comumente, aparecem nessas interações. Ainda que limitados, esses tópicos parecem suficientes para fornecer uma ideia do que algumas pessoas compreendem a partir das frequentes notícias sobre pastores que colocaram fim à sua existência.

 

  1. A igreja nem sempre está ciente de quão frágeis e vulneráveis são seus pastores. As ovelhas parecem não notar que seus pastores também enfrentam diversas dificuldades. Algumas dessas lutas ocorrem no campo familiar, financeiro, emocional e espiritual, mas também pode acontecer no campo mental. Nesse sentido, há pastores que nunca passaram por uma avaliação mental correta, pois até as instituições religiosas que exigem atestados nessa área, nem sempre exigem que esses exames sejam feitos pelos profissionais adequados: psiquiatras ou neurologistas. Muitos desses atestados são assinados por algum amigo ou profissional de outra área que não possui a competência para um exame dessa natureza. Com o passar do tempo, os problemas psicológicos do ministro se tornam insuportáveis para ele mesmo e a igreja é surpreendida com as revelações desses casos.

Pastores continuam sendo humanos e a ordenação ao ministério não os coloca acima das tribulações comuns dessa vida. Nesse sentido, é importante lembrar que após Jesus ser batizado e ter sua identidade como Filho de Deus confirmada por um testemunho divino, ele foi levado pelo Espírito para o deserto com o fim de ser tentado por Satanás (cf. Mc 1.9-13). Com respeito ao ministério pastoral, quando a igreja desconsidera as fragilidades de seu pastor ela não o honra, mas acaba desumanizando aquele que, a despeito de ser um homem de Deus, continua sendo homem! Portanto, é sempre sábio quando o rebanho considera as necessidades e lutas humanas de seus pastores.

 

  1. Alguns pastores não estão recebendo cuidado suficiente de seu rebanho, especialmente do restante da liderança. Pelo fato de ignorarem as fragilidades de seus pastores, muitos crentes deixam de atender suas necessidades básicas. Quando isso acontece, além de lutar contra as dificuldades comuns da vida, esses ministros ainda precisam lidar com o senso de desvalorização e descaso daqueles a quem eles devem ministrar com amor. Um exemplo clássico a esse respeito é o crente que exige a visita, a oração e o cuidado do pastor, mas nunca considerou que esse mesmo pastor poderia ser beneficiado com sua visita, cuidado e oração. Muitas vezes recebo ligações de pastores que se encontram isolados e sem alguém para compartilhar suas tristezas e aflições.

Nesse sentido, a liderança nem sempre ajuda, pois alguns líderes assumem a postura de gerência, ao invés de pastoreio. Para esses, o trabalho pastoral foi delegado ao ministro e tudo que eles devem fazer é apenas supervisionar se a tarefa está sendo realizada. É fácil criticar o sermão do pastor! Difícil é considerar se ele teve tempo suficiente para se preparar melhor depois da semana tão repleta de atividades para atender as demandas da igreja e do conselho. É fácil inventar novos programas para serem implementados pelo pastor. Difícil é se oferecer para cuidar desses programas para que o ministro se consagre à oração e ao ministério da Palavra, seguindo o exemplo dos apóstolos (cf. At 6.4). A verdade é que alguns ministros julgam a tarefa pastoral muito pesada, não pelas demandas inerentes às mesmas, mas pela injustiça praticada por aqueles que foram eleitos para compartilhar o pastorado do rebanho e se limitam simplesmente a gerenciar a agenda do obreiro.

 

  1. Há pastores que são desequilibrados, sempre à beira de um colapso. Portanto, melhor não confiar! Enquanto algumas pessoas pensam que o compartilhamento das notícias sobre suicídio de pastores produzirá maior simpatia dos crentes pela classe pastoral, o contrário também acontece. Algumas pessoas, após receberem tantas notícias acabam concluindo que não se pode confiar nos pastores. Afinal, quem poderá garantir que o pastor terá a maturidade emocional, psicológica e espiritual para ajudar a ovelha que compartilha com ele os dilemas de sua vida? Infelizmente, o fato de muitos pastores usarem os exemplos de angústia e sofrimento daqueles que recorreram ao suicídio no ministério acaba resultando na erosão da credibilidade do rebanho em relação à maturidade de seus ministros.

Certamente pastores não são supercrentes e nem estão acima das lutas comuns da vida. Mas eles foram chamados para o ministério de conduzir o rebanho de Cristo e estabelecer o padrão de maturidade, sabedoria e piedade na vida cristã (cf. 1Tm 4.12, 2Tm 1.13 e Tt 2.7). Ninguém é, por si mesmo, suficiente para esse ministério, mas o Senhor é quem capacita e fortalece seu obreiro para que ele continue representando Cristo para o rebanho comprado pelo sangue do Cordeiro. Portanto, é necessário discernir corretamente quanto à linha tênue entre fragilidade e vitimização.

 

  1. Alguns pastores não conseguem enxergar os aspectos positivos do ministério e, portanto, são consumidos por excessiva tristeza. Nenhum pastor em sã consciência e honestamente afirmará que o desempenho fiel do ministério é algo fácil. Ao relatar parte do seu trabalho, o apóstolo Paulo enumerou várias aflições enfrentadas, as quais foram acrescidas pela preocupação contínua com o bem-estar da igreja e o crescimento espiritual dos cristãos (cf. 2Co 11.24-29). Todavia, a realidade dos sofrimentos não era empecilho para que Paulo reconhecesse que ele servia à igreja “na plenitude da bênção de Cristo” (cf. Rm 15.29). De fato, há inúmeras bênçãos no ministério pastoral e se essas não são notadas pelo obreiro, todo o seu esforço se torna fadiga e ao invés de encorajamento ele se alimentará de frustrações.

É importante esclarecer que focalizar os aspectos positivos do ministério pastoral não equivale a ingenuidade. Não é ingênuo, mas sábio aquele que, ainda que reconhecendo suas lutas e tristezas, consegue visualizar as bênçãos de Deus sobre sua vida. O privilégio de presenciar, à primeira-mão, o poder do Evangelho transformando vidas, restaurando famílias e vivificando igrejas, deveria ser suficiente para manter o pastor em sua caminhada a despeito das dificuldades diárias que ele enfrenta.

 

  1. Algumas pessoas estão no ministério pastoral, mas ainda não compreenderam a rica mensagem do Evangelho. Talvez essa seja a mensagem mais difícil de ser assimilada quando somos confrontados com os suicídios de pastores. Certamente não se pode afirmar que porque a pessoa cometeu suicídio ela não era crente ou não possuía a graça salvadora. As Escrituras Sagradas não permitem essa conclusão cruel em relação àqueles que morreram de forma tão trágica. Todavia, isso não anula o fato de que muitos se encontram no ministério da Palavra, pregando o Evangelho, mas ainda não compreenderam sua riqueza. Nesse sentido, o próprio Jesus afirmou que nem todos os que dizem “porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres?”, de fato, tiveram um conhecimento salvador do Mestre (cf. Mt 7.22). Há pessoas no ministério que não deveriam estar nele. Talvez a maior tragédia nesse sentido seja a do ministro que proclama salvação a outros, mas nunca experimentou a graça salvadora em seu próprio coração. É possível conhecer algo sobre Deus sem ter, realmente, conhecimento e intimidade com o próprio Deus.

Quando alguém desempenha o ministério pastoral sem a compreensão da riqueza do Evangelho, essa pessoa fica desprovida dos recursos do Evangelho para lidar com suas aflições e angústias. Presos nessa armadilha, é possível que alguns, infelizmente, atentem contra a própria vida. Alguns ministros que o fizeram mas tiveram suas vidas poupadas pela graça, atualmente testificam da ignorância que possuíam quanto à riqueza do Evangelho.

 

Lamentavelmente não há garantias de que as mensagens sobre suicídio de pastores cessarão. Porém, é fundamental que você que labuta no ministério aprenda a pedir ajuda e expor suas fragilidades a ponto de se deixar pastorear. Por outro lado, é necessário que também estenda a mão àquele que está mais próximo e que demonstra estar confuso e necessitado. Somente a graça do Senhor nos manterá firmes nessa gloriosa caminhada de sermos pastores assistentes do Supremo Pastor que logo haverá de se manifestar.