Solidão ou Solitude? O que você tem praticado?


Solidão e solitude são, às vezes, confundidos como sinônimos, mas há uma enorme diferença entre esses termos. Solidão diz respeito à condição de isolamento ou a sensação de estar sozinho, acompanhado apenas pelo sentimento de profundo vazio e abandono. Solitude, por sua vez, é uma disciplina espiritual na qual a pessoa se distancia da multidão e do barulho para propósitos específicos relacionados ao crescimento espiritual e dependência de Deus. Solidão é uma condição negativa, mas solitude é uma disciplina positiva. Ricard J. Foster afirma que: “Jesus chama-nos [sic] da solidão para a solitude” (Celebração da Disciplina, p. 119).

Os evangelhos deixam claro que Jesus praticou solitude ao longo de seu ministério terreno. Por exemplo, no início de seu ministério ele passou quarenta dias sozinho no deserto, nos quais jejuou (Mateus 4.1-11). Também, antes de escolher os doze ele se retirou para o monte “a fim de orar, e passou a noite orando a Deus” (Lucas 6.12). Ademais, depois de certa ocasião de intenso trabalho realizando curas e expelindo o demônio de alguém, “tendo-se levantado alta madrugada, saiu, e foi para um lugar deserto e ali orava” (Marcos 1.35). Lucas ainda registra que em seguida à cura de um leproso, ao ser procurado por muitas multidões, Jesus, porém, “se retirava para lugares solitários e orava” (Lucas 5.16). Outrossim, logo após ter recebido os doze que voltaram de uma missão, Jesus disse a eles: “vinde repousar um pouco, à parte, num lugar deserto” (Marcos 6.31). Ainda, ao receber a notícia da morte de João Batista, o Senhor se retirou “para um lugar deserto, à parte” (Mateus 14.13). E depois de alimentar as multidões na primeira multiplicação dos pães e peixes, o Senhor, “despedidas as multidões, subiu ao monte, a fim de orar sozinho. Em caindo a tarde, lá estava ele, só” (Mateus 14.23). Com três de seus discípulos Jesus buscou o silêncio no monte da transfiguração (Mateus 17.1-9) e, finalmente, antes de enfrentar a cruz, ele procurou solitude no jardim do Getsêmani (Mateus 26.36-46). Todas essas passagens deixam claro que “seguir Jesus” implica em aprender a disciplinar nosso coração e agenda para a prática da solitude.

A prática da solitude tem se tornado cada vez mais rara ultimamente. Nossos dias são caracterizados por distrações, correrias e barulhos, o que desencoraja a reflexão, a meditação e o estar a sós com Deus. Em sua obra Glória somente a Deus (p. 110), David Vandrunen afirma:

Talvez o fenômeno que mais distintamente caracteriza nossa época – pelo menos nos países do primeiros mundo, mas rapidamente em muitos países também – seja o surgimento da Internet e de um grande número de engenhocas, a comunicação em massa, os dados instantâneos e a mídia social que tudo isso inspirou. . . Um conjunto de desafios muito sérios envolve o modo como as novas tecnologias tendem a multiplicar as distrações e até a estabelecer um estado de distração constante no nosso coração e mente. Essa distração, por sua vez, tende desencorajar a contemplação profunda e, em vez disso, promover o pensamento superficial.

Nessa mesma linha de raciocínio, Kevin DeYoung (Super Ocupado!, p. 97) observa algo que aconteceu depois da revolução digital:

Para muitos de nós – muitos demais – a correria, agitação e alvoroço da atividade eletrônica é uma triste expressão de acédia [apatia] mais profunda. Sentimo-nos ocupados, mas não com um hobby, recreação ou jogos. Estamos ocupados com a condição de ocupação desenfreada, Em vez de procurar saber o que fazer com os nossos momentos e horas livres, contentamo-nos em nadar nas águas rasas e gastar nosso tempo com simplesmente passar o tempo.

Dessa maneira, a prática da solitude nesse contexto midiático é uma grande luta, pois em vários sentidos, a tentação de permanecer ligado à uma tela para manter a conexão midiática resulta no estrangulamento de nossa alma. A razão pela qual essa prática é uma disciplina é que ela requer mais esforço e domínio próprio do que pensamos.

Em seu livro sobre disciplinas espirituais para a vida cristã (Spiritual disciplines for the Christian life), Donald S. Whitney enfatiza vários benefícios da solitude, mas quero ressaltar apenas cinco desses benefícios nesse texto.

Em primeiro lugar, a solitude nos auxilia a “ouvir melhor a voz do Senhor” em sua Palavra. Um dos problemas no ministério é pastores são viciados em agitação, correria e barulho. Eles parecem precisar estar atarefados demais para se sentirem realmente necessários. Até nos momentos de leitura bíblica e oração geralmente gostam de ouvir alguma música de “pano-de-fundo”. Pior ainda, é que não fazem isso só porque gostam, mas por acreditarem que necessitam disso para uma meditação proveitosa. Nesses casos, a prática da solitude é fundamental para ajudar esses obreiros a romper as amarras de tal vício.

Nós, pastores contemporâneos, deveríamos aprender com o profeta Habacuque que se retirou para sua “torre de vigia” para ouvir mais atentamente a resposta que Deus daria a sua queixa (Habacuque 2.1). Qualquer pessoa que já se dedicou ao estudo da Palavra sem distrações compreende o benefício da solitude a esse respeito.

Em segundo lugar, a solitude nos capacita a adorar a Deus com exclusividade. É importante lembrar que a adoração ao Senhor não inclui apenas palavras, sons e atitudes, mas também silêncio, reflexão e meditação. Algumas vezes nosso coração está tão repleto de gratidão e amor pelo Senhor que nossas palavras se tornam pobres para expressar o que sentimos. Outras vezes, ocorre justamente o contrário, ou seja, nosso coração está tão árido que não sabemos o que dizer. Em qualquer caso, o silêncio e a solitude constituem as atitudes mais apropriadas nessas ocasiões. Além do mais, sabemos que a verdadeira adoração ao Senhor implica em exclusividade. Nesse sentido, David Vandrunen observa que “Deus não é honrado (e nós mesmos somos pouco edificados) pela adoração fornecida por um coração distraído e uma mente relutante – ou até incapazes – de sondar a ‘profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus’ (Romanos 11.33)”. A adoração é fundamental na vida do crente que foi redimido para adorar a Deus em espírito e em verdade e para que isso aconteça é necessário que esse crente lute contra os efeitos da “cultura da distração” em que ele vive.

Em terceiro lugar, a solitude nos ajuda a obter nova perspectiva espiritual de nossa vida e ministério. Nesse sentido, não há, talvez, melhor estratégia para se obter uma perspectiva clara e abrangente do ministério pastoral do que a prática da solitude. Um exemplo bíblico a esse respeito pode ser encontrado na história de Zacarias, o pai de João Batista. O evangelista Lucas narra que ao ouvir a promessa do anjo Gabriel de que ele e sua esposa teriam um filho, Zacarias não acreditou e, por isso, ficou mudo daquele momento em diante até o nascimento de João Batista (Lucas 1.20). Porém, logo após o nascimento do menino, Zacarias escreveu em uma tabuinha que o nome da criança seria João e, seus lábios, desimpedidos, passaram a louvar o Senhor em um maravilhoso cântico. Em outras palavras, quando os lábios de Zacarias foram fechados, sua visão para a operação e realizações do Senhor foi aberta e ele obteve uma perspectiva correta do que deveria fazer.

Donald S. Whitney relata que em agosto de 1949, antes da famosa Cruzada de Los Angeles, a partir da qual Billy Graham ficou conhecido como o mais proeminente evangelista americano, Billy lutava contra várias dúvidas oriundas de questionamentos liberais de pastores que ele muito admirava. Na verdade, um amigo de Billy havia dito a ele que se ele continuasse crendo nas Escrituras ele cometeria “suicídio intelectual”. Algumas noites anteriores à Conferência, Billy buscou solitude em sua cabine e abriu as Escrituras para ler e meditar. Ele observou que as expressões “assim diz o Senhor”, “a palavra do Senhor veio a mim” e tantas outras, eram dominantes nas páginas da Bíblia. Ele ainda meditou nas ações de Jesus em cumprimento às Escrituras e observou o ministério dos apóstolos. Após aquela experiência ele assumiu o seguinte compromisso: “Não posso provar algumas coisas. Não posso dar respostas a algumas perguntas. Mas eu aceito esse livro pela fé como sendo a Palavra de Deus e irei pregá-lo toda minha vida” (Whitney, Spiritual Disciplines, p. 182-183). Aquela nova perspectiva obtida por Billy Graham foi certamente determinante para o sucesso de seu ministério.

Também, a solitude nos auxilia na restauração física e espiritual. O exemplo de Jesus em relação aos seus discípulos é claro nesse sentido. Após um período de ministério intenso, onde não tinham tempo nem mesmo para se alimentarem corretamente, Jesus disse aos seus discípulos: “Vinde repousar um pouco, à parte, num lugar deserto” (Marcos 6.31). Não podemos presumir que somos mais sábios do que o próprio Jesus e nem alimentar a ilusão de que somos mais fortes do que os apóstolos. Todos necessitamos de momentos para restaurar nossas forças físicas e saúde emocional e espiritual.

Por último, a solitude nos ajuda a controlar nossa língua. Tiago lembra que: “todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão, capaz de refrear também todo o corpo” (Tiago 3.2). Não há qualquer dúvida que o controle sobre a língua revela nossa maturidade espiritual e nossa semelhança com Cristo. O que devemos lembrar, porém, é que manter solitude por pequenos intervalos de tempos pode nos ajudar a controlar nossa língua em períodos mais extensos. Assim como muito do barulho ao qual nos acostumamos é desnecessário, também muitas palavras que saem de nossos lábios não são edificantes e precisam ser pesadas na balança antes de serem proferidas. Um dos resultados da prática da disciplina da solitude é o discernimento quanto ao que nos ensina o sábio de Eclesiastes sobre haver “tempo de estar calado e tempo de falar” (Eclesiastes 3.7). Logo, o controle da língua passa pela disciplina de estar à sós com Deus.

Talvez depois de ler sobre os benefícios acima você esteja convencido acerca da relevância dessa disciplina, mas ainda tenha dúvidas sobre o que deve ser feito. Afinal, como praticar solitude em uma geração que nos julga pela nossa agenda cheia? Como separar tempo quando nos vemos estrangulados pelas demandas diárias, especialmente no ministério pastoral? Todas essas perguntas são importantes e desafiadoras, mas deixo abaixo algumas dicas para sua consideração.

Antes de tudo, a prática da solitude exige planejamento. Como todas as coisas importantes em nossa vida demandam um espaço em nossa agenda, a prática das disciplinas espirituais também necessita ser planejadas. A verdade é que não oramos mais, não meditamos mais, não praticamos nosso tempo à sós com Deus e tantas outras coisas, porque não planejamos. Todavia, não praticaremos solitude de uma maneira ocasional, pois se não tivermos o firme propósito de dedicar um tempo à sós com o Senhor, o espaço de nossa agenda será ocupado pelas demandas de outras pessoas, coisas por realizar e inúmeras distrações.

Também, devemos lembrar que toda prática é fruto de pequenas repetições. Assim, a melhor maneira de praticar solitude é “tirando vantagens daqueles pequenos momentos” que temos na nossa correria diária. Essa é uma das sugestões dadas por Foster que defende, por exemplo, que os primeiros momentos matutinos, antes que o restante da família desperte, poderiam ser usados nessa prática (Foster, A celebração da disciplina, p. 130). O que pode atrapalhar nesse sentido é o hábito arraigado de checar a tela do celular ou do computador. É preciso lembrar que o que pensamos ou realizamos nos primeiros momentos do dia revelam o que (ou quem), de fato, é importante para nós!

Finalmente, procure encontrar algum lugar reservado para meditações e orações. Talvez algum quarto ou cantinho especial na residência ou mesmo um parque próximo à sua residência. A varanda de um apartamento ou a sobra de uma árvore podem se transformar em verdadeiros santuários para a alma faminta na busca por maior intimidade com o Senhor. Esses pequenos espaços podem servir de miniretiros espirituais para nossa comunhão com Deus.

                Realmente Jesus nos chama da solidão para a solitude! Enquanto a solidão nos consome emocional e espiritualmente, a solitude renova nossa comunhão com Deus, a Fonte da verdadeira vida. Todos nós precisamos de momentos à sós com Ele.